Fundição artística e fundição industrial: dois usos do fogo, duas relações com o tempo
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Enquadramento da atividade da Mão de Fogo, a sua evolução e o seu valor cultural para Montemor‑o‑Novo
Introdução
Nem tudo o que funde metal é igual. A palavra “fundição” pode designar uma linha industrial em funcionamento contínuo, dedicada à produção em série, ou um atelier de escultura onde o metal é fundido apenas quando uma obra, longa e amadurecida, chega finalmente a esse momento decisivo. O gesto técnico é semelhante — aquecer, fundir, verter — mas o tempo, o significado e o impacto são profundamente distintos.
A Mão de Fogo nasce e desenvolve‑se neste segundo mundo. Um mundo onde o fogo não é permanente, mas ritual; onde o forno não é motor contínuo, mas instrumento pontual; onde a maior parte do trabalho acontece antes e depois da fusão, em processos lentos de conceção, decisão e acabamento.
Este texto procura explicar essa diferença com clareza e humanidade. Não como defesa abstrata, mas como relato fiel de uma prática artística concreta, com história, com evolução e com um impacto real — cultural, académico e territorial — no concelho de Montemor‑o‑Novo.
1. Um início possível, uma atividade então legalmente enquadrada (2001)
Quando a Mão de Fogo iniciou a sua atividade, em 2001, era legalmente admissível exercer uma fundição no local onde hoje se encontra instalada. O enquadramento municipal e o regime urbanístico então em vigor permitiam essa utilização, e a atividade foi exercida de forma transparente e continuada.
Foi apenas com o passar dos anos, e com as sucessivas alterações aos regulamentos municipais e ao PDM de Montemor‑o‑Novo, que a designação genérica de “fundição” passou a ser progressivamente vedada em zonas rurais. Esta evolução normativa não resultou de uma intensificação da atividade da Mão de Fogo, mas de uma reclassificação administrativa que passou a colocar sob a mesma designação realidades produtivas muito distintas.
Importa, por isso, sublinhar que:
· a Mão de Fogo já existia e operava legalmente no momento da sua instalação;
· e que foi a alteração do quadro regulamentar — e não uma alteração súbita da natureza da empresa — que veio criar a necessidade de clarificação atual.
2. Da fundição de apoio aos artistas à maturidade de um atelier
Nos primeiros anos, a Mão de Fogo funcionava sobretudo como fundição de apoio a artistas externos. Nessa fase inicial, o volume de fundições era naturalmente maior, e o forno era ligado com maior frequência, acompanhando a realidade do setor artístico da época.
Com o tempo, a empresa amadureceu e transformou‑se. Os serviços tornaram‑se mais amplos e especializados, incluindo:
· consultoria técnica e acompanhamento de projetos artísticos,
· planeamento de processos e soluções construtivas,
· desenvolvimento e acabamento de obra escultórica,
· apoio à integração de escultura em espaço público e arquitetura.
Esta evolução teve um efeito claro: a atividade de fundição diminuiu significativamente, deixando de ser o centro permanente do trabalho para se tornar apenas uma das possíveis fases do processo.
Um momento determinante nessa transformação foi a integração, a tempo inteiro, de uma escultora residente — Carla Rondão. A sua presença reforçou o carácter de atelier criativo e alterou profundamente o ritmo da casa: as esculturas passaram a permanecer mais tempo no espaço, em fases longas de modelação, definição formal e acabamento, o que reduziu ainda mais a necessidade de fundição frequente.
3. O forno: de presença constante a gesto excecional
Numa fundição industrial, mesmo de pequena dimensão, o forno existe para funcionar diariamente. É o coração permanente da operação.
Na Mão de Fogo, o forno existe para servir a obra, não para justificar a sua própria utilização. É ligado apenas algumas vezes por ano — cerca de uma dúzia de campanhas — e por períodos curtos, raramente superiores a três horas.
Este dado simples transforma tudo:
· o consumo anual de energia,
· o volume de metal fundido,
· a quantidade de resíduos associados,
· e a própria relação simbólica com o fogo.
Aqui, fundir não é rotina. É conclusão.
4. O verdadeiro tempo da escultura
Uma escultura não nasce no momento da fundição. Nasce muito antes:
· na modelação,
· na correção,
· na moldação,
· na preparação paciente dos refratários,
· nas secagens,
· na montagem do sistema de fundição.
E continua muito depois:
· na soldadura,
· na cinzelagem,
· na reconstrução das superfícies,
· nas patines,
· na proteção,
· na instalação.
O momento em que o forno é ligado é intenso, mas breve. Em termos de tempo total de produção, é praticamente residual. Pensar a Mão de Fogo como uma “fundição” no sentido industrial é ignorar que o fogo ocupa apenas um instante num processo longo, humano e artístico.
5. Materiais, resíduos e clareza necessária
No processo predominantemente utilizado — cera perdida — os refratários e cascas cerâmicas assentam em matérias‑primas minerais simples, como areias e gesso/estuque, amplamente utilizadas na construção civil. Quando corretamente geridos, não são resíduos tóxicos, nem comparáveis a subprodutos de processos industriais mais pesados.
É igualmente importante esclarecer que:
· a Mão de Fogo não realiza fundição por areia nas suas instalações;
· sempre que esse processo é necessário, ele é subcontratado a fundições especializadas em Portugal ou Espanha;
· e existem inclusive casos em que todo o trabalho é externalizado, não passando qualquer fase de fundição pelo local.
Deste modo, a carga ambiental associada à fusão metálica no espaço da Mão de Fogo é pontual, reduzida e controlada.
6. O nome da empresa e a realidade atual da atividade (objeto social e CAE)
Embora a designação social da empresa ainda inclua a expressão “Fundição Artística”, essa nomenclatura deve ser entendida como um formalismo histórico, herdado da génese da empresa e do seu reconhecimento inicial no meio artístico.
Na prática:
· o objeto social da empresa é hoje muito mais amplo, incluindo serviços de atelier de escultura, consultoria, conceção e acompanhamento de projetos artísticos;
· e mesmo ao nível da classificação de atividade económica (CAE), a fundição deixou de ser a atividade principal, tendo sido substituída por atelier de escultura e por atividade agrícola, hoje com maior preponderância.
Esta última vertente reveste‑se de um significado particular: a recuperação da atividade agrícola no mesmo espaço onde ela foi exercida durante décadas pelo pai do fundador da empresa, até ao ano de 2013. A presença atual da Mão de Fogo não representa uma rutura com o uso histórico do solo, mas sim uma continuidade, agora enriquecida por uma dimensão cultural.
7. Um atelier aberto ao meio académico europeu (Erasmus e estágios)
Para além da dimensão artística, a Mão de Fogo desenvolveu ao longo dos anos uma ligação consistente ao meio académico internacional. O atelier recebe regularmente estudantes em regime Erasmus, provenientes de várias universidades europeias, para estágios profissionais.
Estes estudantes vêm:
· trabalhar em contexto real de atelier,
· aprender processos de escultura, metal e produção artística,
· e, simultaneamente, viver e usufruir do concelho de Montemor‑o‑Novo.
Esta presença torna Montemor‑o‑Novo visível no meio académico europeu, criando laços que se prolongam no tempo através de redes universitárias, projetos futuros e circulação internacional. Trata‑se de um impacto discreto, mas profundo, que transforma o território num lugar de aprendizagem e criação, e não apenas de passagem.
8. A Mão de Fogo como lugar de visita, circulação e visibilidade cultural para Montemor‑o‑Novo
Ao longo dos anos, a Mão de Fogo tornou‑se mais do que um local de produção artística. Tornou‑se um lugar de visita. Não no sentido turístico convencional, mas como ponto de passagem qualificado para escultores, artistas, curadores, arquitetos, jornalistas culturais e equipas de produção — nacionais e internacionais — que se deslocam propositadamente a Montemor‑o‑Novo para acompanhar projetos, conhecer processos, discutir decisões artísticas ou compreender o contexto em que uma obra é feita.
Essas visitas não são episódicas nem decorativas. Fazem parte do modo como a produção artística contemporânea funciona: a obra constrói‑se em diálogo, no local onde a matéria é trabalhada. E esse local tem nome, paisagem e identidade.
8.1 Visitas qualificadas e circulação de discurso
Quando escultores e artistas trabalham com a Mão de Fogo, trazem consigo redes profissionais ativas. Curadores visitam ateliers para compreender processos antes de programar exposições. Arquitetos acompanham etapas de produção de obras integradas em edifícios ou espaço público. Jornalistas culturais procuram contextos materiais reais para escrever sobre práticas contemporâneas que resistem à abstração.
Essas visitas dão origem, de forma natural e recorrente, a:
· artigos em revistas e plataformas culturais,
· textos curatoriais e catálogos,
· publicações em redes sociais profissionais,
· referências cruzadas em entrevistas, conferências e apresentações públicas.
Montemor‑o‑Novo é, assim, citado, fotografado, descrito e situado não como cenário ocasional, mas como lugar onde a obra acontece. Esta visibilidade não se compra nem se planeia por campanha: constrói‑se por continuidade e pela qualidade do que é feito.
8.2 Um tipo de divulgação que nasce do trabalho real
A divulgação gerada a partir da Mão de Fogo não assume a forma de promoção territorial institucional direta. É uma divulgação mais subtil e, por isso mesmo, mais robusta: surge integrada em discursos sobre arte, técnica, processo e criação contemporânea.
Quando um escultor refere onde produziu a obra; quando um curador descreve o atelier que visitou; quando um jornalista contextualiza a fundição e o espaço onde acompanhou o processo; quando uma equipa internacional partilha imagens e relatos do seu trabalho em Montemor — o concelho ganha presença simbólica em circuitos que raramente são atingidos por estratégias convencionais de promoção.
É uma visibilidade que coloca Montemor‑o‑Novo no mapa cultural por associação a competência, rigor técnico e profundidade artística.
8.3 Um polo ativo para a comunidade artística local
Para além das redes externas, a presença da Mão de Fogo tem impacto direto na comunidade artística local e regional. O atelier funciona como:
· espaço de referência técnica,
· lugar de contacto entre práticas distintas,
· ponto de cruzamento entre gerações e disciplinas.
Artistas locais beneficiam da proximidade de uma estrutura profissional que trabalha regularmente com contextos internacionais. Jovens criadores encontram contacto com processos reais e exigentes. O território deixa de ser apenas lugar de produção agrícola ou residencial e passa a integrar, de forma concreta, o mapa da criação artística contemporânea.
Esta dimensão é particularmente relevante num contexto rural: não se trata de importar cultura de forma episódica, mas de produzir cultura em permanência, com raízes no lugar.
8.4 Prestígio silencioso e cumulativo para o concelho
O efeito desta circulação é lento, mas cumulativo. Não se mede em números imediatos, mas em reputação construída ao longo do tempo. Cada visita, cada texto publicado, cada obra produzida e documentada acrescenta uma camada de reconhecimento.
Montemor‑o‑Novo passa a ser associado a um território onde:
· se trabalha arte em profundidade,
· se produzem esculturas de escala e exigência técnica,
· se acolhem criadores internacionais,
· se cruza prática artística, técnica e paisagem.
Esse prestígio silencioso é um dos contributos mais duráveis que um espaço como a Mão de Fogo pode oferecer ao concelho.
9. Um futuro que se afasta do forno — sem o apagar
A fundição artística clássica é hoje um processo cada vez mais exigente e oneroso. A Mão de Fogo tem consciência disso e olha para o futuro com lucidez.
O caminho não passa por intensificar a dependência do forno, mas por:
· reduzir gradualmente essa dependência,
· estudar a transição para fornos elétricos, diminuindo a utilização de combustíveis fósseis,
· afirmar‑se cada vez mais como empresa de serviços especializados para o setor da arte e da escultura,
· atrair operários altamente qualificados, grandes nomes da escultura nacional e internacional e as suas equipas,
· funcionar como um “escritório‑atelier”, um hub de soluções para o mercado artístico, em metal — a especialidade histórica — mas também noutros materiais.
Neste modelo, o valor não está na quantidade de metal fundido, mas na inteligência do processo, na experiência acumulada e na capacidade de articular criação, técnica e território.
Conclusão
A Mão de Fogo não é, hoje, uma fundição industrial. É um atelier de escultura, com fundição artística episódica, herdeiro de uma história iniciada legalmente em 2001 e evoluída de forma consciente, responsável e transparente.
É um espaço onde o fogo ainda existe — mas já não como máquina permanente. Existe como gesto raro, integrado num processo artístico que olha para o futuro: mais leve, mais sustentável, mais aberto ao mundo académico e cultural.
É nesse equilíbrio entre matéria, tempo, criação e território que a Mão de Fogo se inscreve em Montemor‑o‑Novo — não como exceção, mas como valor.