Fundição em areia ou cera perdida? Nem sempre o processo mais barato é o mais indicado.
Quando um escultor nos contacta para fundir uma peça em bronze, uma das questões que aparece com alguma frequência é a possibilidade de fazer a fundição em areia. A razão é normalmente simples: a fundição em areia pode ser mais económica e, por isso, existe a ideia de que, sempre que for possível retirar algum custo ao processo, será essa a melhor opção. Na realidade, não é assim tão simples.
Na Mão de Fogo trabalhamos tanto com fundição em areia como com cera perdida e não consideramos que um processo seja melhor que o outro. São processos diferentes e cada um tem o seu lugar. Há peças que fazem todo o sentido serem fundidas em areia e outras em que optar por esse processo significa começar logo à partida a aceitar alguma perda na reprodução do original.

É precisamente aqui que começam as diferenças entre os dois processos. A fundição em areia funciona muito bem em muitas situações, principalmente quando temos formas relativamente simples, superfícies mais lisas, peças de maiores dimensões ou trabalhos em que o detalhe muito fino da superfície não é determinante. Nestes casos pode ser uma solução perfeitamente adequada e, naturalmente, mais económica. Não faria sentido complicar o processo e aumentar o custo de uma fundição quando a própria peça não o justifica.
Mas acontece-nos receber esculturas bastante modeladas em que nos é pedida fundição em areia apenas porque existe a ideia de que será mais barata. E aí temos de explicar ao cliente que existe um compromisso. Podemos fazer a peça, mas temos de perceber o que estamos dispostos a perder. Uma textura muito subtil, uma marca deixada intencionalmente na plasticina ou um pequeno pormenor de um rosto pode não chegar ao bronze exatamente da mesma forma.
É por isso que, quando o carácter da escultura está precisamente nesses pequenos pormenores, normalmente aconselhamos a cera perdida. É um processo com mais etapas e, consequentemente, com outro custo, mas permite-nos preservar muito melhor aquilo que o escultor fez no original. Num rosto, numa mão ou numa superfície muito trabalhada, essa diferença pode ser importante.
Há ainda outro aspeto que por vezes é esquecido quando se comparam apenas os preços dos dois processos. Aquilo que se poupa inicialmente na moldação pode depois transformar-se em mais horas de trabalho no acabamento do bronze. Podemos corrigir uma superfície, limpar uma zona ou trabalhar novamente determinados pormenores, mas há um limite para aquilo que conseguimos recuperar. Se uma textura existente no original desapareceu durante o processo, já não estamos propriamente a reproduzi-la. Estamos a tentar recriá-la no metal. E não é exatamente a mesma coisa.
Por isso, quando recebemos uma escultura para orçamentar, preferimos não começar pela pergunta sobre qual dos dois processos é mais barato. Primeiro olhamos para a peça. Tentamos perceber como foi modelada, que importância tem a textura, onde estão os detalhes que não podem desaparecer e qual é o resultado que o escultor espera encontrar quando vir a sua obra em bronze. Só depois faz sentido decidir como será fundida.
Há esculturas que podemos fundir perfeitamente em areia e não há qualquer razão para escolher um processo mais complexo. Há outras em que recomendamos cera perdida porque sabemos, pela nossa experiência de oficina, que tentar poupar nessa fase poderá alterar demasiado o resultado final.
No fundo, é uma decisão bastante simples: não devemos escolher primeiro o processo e depois tentar adaptar a escultura a esse processo. Devemos olhar primeiro para a escultura e escolher a forma de fundir que melhor respeita o trabalho do escultor.


